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Considerações sobre o papel do goleiro na Iniciação Esportiva

Por Mariana Beloni e Christian Faccio

A iniciação esportiva é o período em que o aprendiz é apresentado a uma modalidade de maneira sistematizada e geralmente ocorre durante a infância. Nessa fase, é importante que o indivíduo tenha uma grande variedade de experiências para que se t orne um praticante inteligente e adaptável dentro do esporte. Porém, o que é consenso na literatura, não ocorre na prática e o que se vê, muitas vezes, em escolinhas e clubes de futsal é a especialização de crianças em posições fixas em idades em que eles deveriam ter práticas com mais oportunidades de exploração.

Isso é ainda pior na posição de goleiro, pois, de maneira geral, o treinamento e ensino das funções características dessa posição são feitas de forma isolada, sem a presença de companheiros e adversários, que são balizadores essenciais das
ações dos goleiros.

É preciso reconhecer que o jogo é um sistema dinâmico e as ações emergem pelas interações entre seus componentes. Portanto, para que uma atividade auxilie o aprendiz na busca por ações funcionais durante seu desenvolvimento, é importante que seja uma tarefa representativa que garanta a presença de elementos fundamentais do jogo. Mas é necessário ir além. Se o objetivo é a formação de jogadores inteligentes e adaptáveis, é fundamental a vivência em todas as posições que o jogo oferece para que o indivíduo tenha contato com uma grande variedade de possibilidades de ação e consiga se sintonizar nas mais funcionais para ele. Dessa maneira, durante o período da iniciação é interessante que t odos os jogadores vivenciem práticas que possibilitem ações características das posições dos jogadores de linha e dos goleiros.

Dizemos que esse processo de iniciação e formação esportiva dito ideal fica a desejar quando observamos o contexto dos clubes esportivos que disputam campeonatos das federações, onde o objetivo é ganhar jogos e títulos. Nesses casos, as crianças são especializadas em posições específicas, principalmente os goleiros. Muitas vezes, a escolha pelo gol nem é feita pelo próprio praticante. Características físicas e o f ato de não t erem medo da bola f az com que essas crianças sejam escolhidas para ocupar a posição.

É nítido que esse cenário competitivo impossibilita t ermos um processo de aprendizagem e experimentação ideais na prática esportiva nas idades iniciais. O que nós, profissionais do esporte e de formação, podemos fazer para que consigamos chegar num contexto ideal de prática nessas idades? Será que apenas uma mudança nos trabalhos e treinamentos resolveria? Será que uma mudança no pensamento dos clubes sobre o processo de formação ajudaria? E quanto a uma mudança nas regras nos campeonatos de federação das categorias iniciais? Por que não deixar de especificar a posição de goleiro, liberando que qualquer jogador possa ocupar essa posição durante a prática? Essas são algumas perguntas que podemos fazer quando pensamos no processo de formação e na especialização precoce de goleiros.

Além disso, como essa não especialização nas idades iniciais pode ajudar na formação do aprendiz? Sabendo que o jogo é um sistema dinâmico e complexo, e que as ações emergem da relação mútua entre indivíduo, meio e tarefa, quando
proporcionamos aos aprendizes a experimentação em todas as posições dentro de um jogo, estamos fazendo com que os mesmos se sintonizem melhor com os constrangimentos, percebam melhor e mais affordances, e apresentem um maior
grau de funcionalidade. Ou seja, eles conseguem se adaptar melhor às situações que lhes são impostas.

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