Ícone do site TTF

Treinamento de futebol sob uma perspectiva ecológica – Parte 1

Por Gabriel Magalhães e Lucas Stevenson

Antigamente, muito se pensava que para você treinar um jogador você teria que fazer um recorte de aprendizagens técnica do jogo, ou seja, você precisaria treinar chute, passe, cabeceio, drible e condução separadamente, logo você teria um jogador completo tecnicamente e pronto para os desafios do jogo. Com o passar do tempo percebe-se que apenas o treino técnico não daria conta do jogo. Então, de forma complementar, passou-se a adotar o treinamento físico, onde os treinos, além da parte técnica, tinham uma parte de força, resistência e agilidade, produzindo assim, teoricamente, jogadores mais preparados fisicamente para a partida. Por fim, chegaria um terceiro elemento, a tática. Os treinadores e teóricos da época começaram a perceber que o futebol tem quatro fases principais: ataque, defesa, transição e bola parada. Sendo assim, era imprescindível que o treinamento contemplasse esses momentos do jogo, pois assim estariam trabalhando todas as fases do jogo e consequentemente sua tática.

A evolução dos processos de treinamento mostrou que havia uma necessidade de uma melhor construção desse ambiente de treino, para assim atingir uma progressão individual e coletiva da equipe. Dessa forma, a especialização se daria pelo entendimento da preparação física, técnica e tática do jogo. (LEITÃO, 2009).

Essa forma de treinar separadamente ficou popularmente conhecida como perspectiva analítica, ou treinamento analítico. Isso quer dizer que o todo se daria pela soma das partes de forma fracionada. A ideia principal de desempenho sob essa perspectiva se baseia no princípio de que separando as partes você consegue maximizar os fatores de rendimento para o todo.

Mas conforme o tempo, alguns teóricos começaram a colocar em xeque a perspectiva analítica de treinamento, devido ao fato desta não contemplar a complexidade da natureza do jogo. Desse termo – complexidade – surge uma abordagem de treinamento que seria usada até os dias de hoje, a abordagem sistêmica. A abordagem sistêmica se baseia na ideia que no jogo você atua num contexto em que se estabelece relações de dependência e interdependência entre seus companheiros e  adversários, caracterizando assim um sistema.

A relação entre as equipas configura os contornos do jogo que pode ser considerado um sistema constituído por outros sistemas que procuram alcançar determinadas finalidades (Gréhaigne, 1989). Essas determinadas finalidades partem do pressuposto que o jogo tem um objetivo, ou seja, uma lógica interna. Diante disso, seu treinamento precisaria estar de acordo com essa relação de sistemas, existente entre companheiro/adversário, e com a lógica interna do jogo.

A partir dessa teoria, surgiram, dentro do esporte, tentativas de tentar compreender como se dá então as decisões de um atleta. Como ele pensa o que ele pensa? Como ele decide o que ele decidiu? O que se pensava era: se eu compreender isso, conseguirei dar melhores treinos. Uma abordagem que foi muito aceita para explicar esses fenômenos cognitivos, foi a abordagem cognitivista. Essa abordagem acredita que você tem uma ordem para efetuar uma ação, ou seja, um determinado estímulo externo irá ser transmitido até seu sistema nervoso central, o sistema nervoso central então irá processar como proceder, tomará uma decisão e, por fim, fará uma ação. Por muito tempo isso foi aceito como uma lei, até porque como haveria outra forma de se processar? seria possível discordar dessa teoria?

Entretanto, alguns estudiosos do campo da informática e da psicologia comportamental, começaram a notar que talvez o cérebro não conseguisse dar conta de processar sozinho todos os eventos. Foi o que constatou, por exemplo, Andrew D. Wilson em um experimento chamado A Tale of Two Robots, onde ele comparava o comportamento de dois robôs, sendo que um deles foi processado a partir da perspectiva cognitivista e o outro da perspectiva dinâmica. Ele pode perceber que o robô sob o funcionamento dinâmico funcionava muito mais próximo de um humano do que o robô sob o funcionamento cognitivista. Isso revela que, talvez, a abordagem cognitivista não seria a melhor para explicar fatores dinâmicos. Além desse experimento, muitos teóricos da psicologia comportamental começaram a perceber o mesmo e trouxeram isso até o esporte. Os  principais pioneiros das escolas da teoria da psicologia ecológica foram James Gibson (1904-1979), Roger Barker (1903–1991), Egon Brunswik (1903–1956), Urie Bronfenbrenner (1917-2005), todos eles de alguma forma influenciados por Kurt Lewin (1890-1947). Eles então iriam propor um novo conceito de entendimento de tomada de decisão no jogo, que seria chamado de Abordagem Ecológica. Mas o que seria Abordagem Ecológica?

Quando pensamos em ecologia, estamos pensando em um conceito que parte da biologia no final do século 19 e início do século 20 com os pensadores Ernst Haeckel e Eugenius Warming, influenciados pela teoria da evolução de Charles Darwin. A Ecologia é a parte da Biologia que se preocupa com o estudo das relações estabelecidas entre os seres vivos e destes com o meio ambiente em que vivem. Isso quer dizer que a ecologia não está preocupada apenas com o indivíduo, nem apenas com o ambiente, e sim como a relação entre indivíduo e ambiente se dá, e o que ela nos mostra.

Essa teoria que parte da biologia, depois ganha força dentro da psicologia com os pensadores James Gibson (1904-1979), Roger Barker (1903–1991), Egon Brunswik (1903–1956), Urie Bronfenbrenner (1917-2005) e Kurt Lewin (1890-1947). Essa teoria seria melhor elaborada como o tempo, usufruindo-se de muitas outras áreas do conhecimento, como por exemplo: teoria interacionista (pedagogia), teoria do processamento de informação (informática), teoria ecológica (biologia), teoria do desenvolvimento cognitivo (psicologia), teoria dos sistemas complexos e dinâmicos (física) e etc.

Essa última teoria, a perspectiva dos sistemas complexos e dinâmicos, deu subsídios para o desenvolvimento da análise e compreensão dos padrões complexos observados em aspectos biológicos, psicológicos, sociológicos e outros sistemas. Isso cresceu dentro da perspectiva de análise de sistemas não lineares complexos. Diante disso, a psicologia do esporte conseguiu uma ferramenta muito forte para investigar como se dá a dinâmica comportamental que emergem das interações entre o sistema nervoso, corpo e ambiente circundante, incluindo outras pessoas, durante o desempenho esportivo (Kelso, 1995). Mas agora essa análise não seria mais vista de um ponto de vista cognitivista e sim ecológico, já que a primeira, teoricamente, não deu conta de explicar totalmente fenômenos complexos.

Criaturas vivas e seus ecossistemas podem ser compreendidos como formando um sistema adaptativo complexo, partes do qual fazem não funcionam independentemente uns dos outros, continuamente moldando as adaptações e modificações uns dos outros diante de pressão de espaço e tempo. Corpos, sistemas nervosos e ambientes são todos evoluindo continuamente e adaptando-se simultaneamente durante comportamentos direcionados a objetivos (Van Gelder & Port, 1995).

Gibson então assume que os indivíduos buscam affordances (oferta), ou seja, propriedades do ambiente que têm significado funcional para um indivíduo ativo ter possibilidades de ação. Possibilidades são propriedades relacionais, referindo-se simultaneamente ao meio ambiente e ao indivíduo, ou seja, uma affordance é uma propriedade do ambiente tomada com referência às possibilidades funcionais de um indivíduo. Isso quer dizer que, um cachorro não irá perceber uma affordance de dirigir um carro, pois não é uma propriedade do ambiente tomada com referência às possibilidades funcionais desse indivíduo. Mas ele irá perceber, caso o portão esteja aberto, que é uma affordance para ele sair, já que gosta muito de passear e é uma propriedade do ambiente tomada com referência às possibilidades funcionais desse indivíduo. Isso quer dizer que o cachorro apenas se sintoniza com o que é apresentado e possível dentro da sua realidade

Bem como no exemplo acima, no esporte de alto desempenho, intenções, percepções, ações e sentimentos emergem continuamente sob restrições ambientais, de tarefa e indivíduos (Seifert & Davids, 2012; Warren, 2006). Seria então possível um indivíduo desenvolver adaptação sem pressão ambiental? Como ele iria se sintonizar melhor para as possíveis affordances do jogo se o treino não o estimula a perceber ofertas de ação? Além disso, como ele age sob essa pressão ambiental? Vamos discutir isso a partir de alguns exemplos de treinamento.

____________________________________________________________________________________________________________________________________

GRÉHAIGNE, J. F. “Football de Mouvement”. Vers une aproche Systémique du jeu. Thése de Doctorat. Université de Bourgogne. UFR-STAPS, 1989.

Kelso, J. A. S. (1995). Dynamic patterns: The self?organization of brain and behavior. Cambridge, MA: MIT Press

LEITÃO, RODRIGO, APARECIDO. AZEVEDO. O jogo de futebol: investigação de sua estrutura, de seus modelos e da inteligência de jogo, do ponto de vista da complexidade: Tese de Doutorado. Campinas, S.P: 2009 p.p.58-59-60.

Van Gelder, T., & Port, R. (1995). Mind as motion: Explorations in the dynamics of cognition. Cambridge, MA: MIT Press.

Seifert, L., & Davids, K. (2012). Intentions, perceptions and actions constrain functional intra – and inter – individual variability in the acquisition of expertise in individual sports. The Open Sports Sciences Journal, 5 (Suppl. 1), 68–75. doi:10.2174/1875399X01205010068

https://www.psychologytoday.com/intl/blog/cognition-without-borders/201206/tale-two-robots (experimento do robô)

Sair da versão mobile