Qual o papel da estratégia e do modelo de jogo na abordagem ecológica?

Por Glauber Reggiani, Natalia Puñales e Fernando Pires

Qual o papel da estratégia e do modelo de jogo na abordagem ecológica? De acordo com a Teoria da Dinâmica Ecológica, a tomada de decisão nos esportes emerge a partir da interação indivíduo-meio. Ou seja, a cada ação tomada no jogo, se faz necessária uma nova percepção sobre o lance, para se ter uma nova ação. No entanto, as decisões tomadas são constrangidas por diversos fatores, dentre os quais destacam-se o modelo de jogo da equipe, a estratégia adotada e as
capabilities de cada integrante.

O modelo de jogo pode ser entendido como um mapa de t reino da equipe, visto que busca direcionar a preparação da mesma para um referencial comportamental único (Vilar, Araújo, Travassos & Duarte, 2016). É a partir do jogar que se retende que o treinador crie as tarefas de treino. Agindo como um designer através da manipulação dos constrangimentos da tarefa, gera as shared affordances, que à luz da dinâmica ecológica podem ser entendidas como convites à ação percebidas por todos os membros do time.

Sendo assim, é imperativo que as tarefas desempenhadas na preparação para jogar facilitem a sintonização dos atletas na direção de perceberem mais ou menos as mesmas affordances, gerando um estado estável (atrator) coletivo. As tarefas do treino podem ser constrangidas ainda pela estratégia que a equipe adotará em um determinado partido.

Posto isso, consideramos que a estratégia e o modelo de jogo são norteadores do processo de treino, tanto para o(a) treinador(a) quanto para os(as) atletas. Mas não basta só isso! É preciso que a estratégia e o modelo de jogo andem de mãos dadas com o processo de treino. Afinal, não basta ter um discurso bonito sobre como o seu time deve se comportar durante um ataque posicionado no momento com bola e não exercitar essa forma de jogar nos treinamentos.

Digamos que uma equipe de futsal tenha um(a) excelente pivô, o qual tem uma grande capacidade de segurar a bola de costas e bom giro para finalização. O(a) treinador(a) então define que sua equipe, nos ataques posicionados, deve buscar um jogo mais vertical e em função do(a) pivô. Além disso, ele(ela) diz que os(as) atletas sem bola devem cortar a quadra para facilitar o passe para o(a) pivô. Só compartilhar essa ideia com os(as) atletas não será suficiente, é preciso praticar!

Como já mencionado, as tarefas de t reino devem direcionar a percepção dos(as) atletas para as affordances desta forma de jogar. Então, é preciso criar jogos que estimulem os(as) atletas a procurarem mais passes para frente, que busquem criar espaços para facilitar o passe para o(a) pivô e que estimulem o 1×1 de costas do(a) pivô.

Um bom exemplo, a fim de exercitar o corte de quadra pretendido pelo(a) treinador(a), é um jogo de 2×2 em meia quadra, no qual uma equipe ataca o gol e a outra faz touchdown na linha do meio. A equipe que ataca o gol conta com dois apoios na linha de fundo, mas só podem acioná-los se houver um corte.

Neste exemplo, a regra do jogo direciona a percepção para o movimento de corte, mas continua oferecendo autonomia aos(as) atletas para que percebam outras affordances, de acordo com suas capabilities. Este é um cuidado que devemos ter na construção das tarefas de treino, sem restringir a percepção dos(as) atletas.

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